Café Brasileiro

Uma história de cooperação japonesa e inovação agrícola

O café é a segunda bebida mais consumida no mundo, ficando atrás apenas da água, e o Brasil orgulha-se de ser o maior produtor e exportador de café, além de ocupar a posição de segundo maior consumidor global, superado apenas pelos Estados Unidos.

A produção de café no Brasil destaca-se pela concentração em propriedades familiares, onde as lavouras são cuidadosamente cultivadas. Esta atividade agrícola é uma importante fonte de receita para muitas famílias, gerando empregos em todas as etapas do processo, desde a produção até a industrialização e comercialização.

O café tem raízes profundas na história do Brasil, remontando ao século XIX, durante o período imperial. Após os ciclos econômicos do pau-brasil, da cana-de-açúcar e do ouro, o ciclo do café emergiu como a maior fonte de riqueza do país e seu principal produto de exportação, perdurando até o século XX.

Nos vastos campos do Brasil, uma colaboração incomum floresceu, moldando não apenas a paisagem agrícola, mas também os métodos de plantio e colheita do café. Os japoneses, com sua tradição de precisão e inovação, desempenharam um papel crucial nesse desenvolvimento, trazendo uma riqueza de conhecimento e técnicas que transformaram a indústria cafeeira brasileira.

Desde 1908, quando o navio “Kasato Maru” partiu do porto de Kobe e atracou no porto de Santos, cerca de 250.000 japoneses imigraram para o Brasil. Inicialmente atuando na agricultura, os imigrantes japoneses se destacaram em diversas áreas, como governança, saúde e educação. Suas conquistas contribuíram significativamente para a sociedade, economia e administração pública brasileira, fortalecendo a confiança entre o Brasil e o Japão.

No início do século XX, a imigração japonesa foi impulsionada pela necessidade de suprir a falta de mão de obra nas lavouras de café do estado de São Paulo. Este vínculo é tão forte que podemos afirmar que o café atraiu os imigrantes japoneses ao Brasil, resultando na robusta comunidade nipo-brasileira que conhecemos hoje. Interessantemente, o “Kasato Maru” também levou sacas de café para o Japão, a pedido dos cafeicultores brasileiros, promovendo ainda mais a cultura do café.

A era da mecanização abriu novos horizontes para os cafeicultores brasileiros, impulsionada pela adaptação e implementação de técnicas japonesas de ponta. Máquinas modernas revolucionaram a colheita, enquanto sistemas avançados de irrigação trouxeram uma nova eficiência ao uso da água nas plantações. Essa colaboração estendeu-se além das máquinas e equipamentos, adentrando o campo da pesquisa e desenvolvimento.

Através de parcerias entre instituições acadêmicas japonesas e brasileiras, foram alcançados avanços notáveis na genética do café e na resistência a pragas e doenças. Estudos conjuntos sobre solo e clima refinaram ainda mais as práticas de cultivo, identificando as regiões mais propícias para a produção de cafés de alta qualidade.
Além disso, a preocupação com a sustentabilidade guiou a introdução de práticas agrícolas inovadoras, como a rotação de culturas e o uso de fertilizantes orgânicos. Inspirados em métodos japoneses, o controle biológico de pragas promoveu um cultivo mais harmonioso com a natureza, reduzindo o impacto ambiental das plantações

Essa parceria também se manifestou no campo da capacitação e transferência de conhecimento. Os agricultores brasileiros foram beneficiados por programas de treinamento e educação patrocinados por instituições japonesas, capacitando-os a adotar novas tecnologias e práticas agrícolas. O intercâmbio de conhecimento entre especialistas do Brasil e do Japão enriqueceu ainda mais essa colaboração, promovendo uma troca contínua de ideias e experiências.

Na fase pós-colheita, técnicas avançadas de processamento, como secagem e torrefação, refinaram a qualidade do café brasileiro. Tecnologias de armazenamento desenvolvidas no Japão garantiram a preservação dessa qualidade durante o transporte e armazenamento, elevando o produto final a novos patamares de excelência.

Os investimentos japoneses em infraestrutura e tecnologia agrícola também foram catalisadores essenciais para a modernização das plantações de café no Brasil. Programas de cooperação técnica e econômica estimularam o desenvolvimento de projetos conjuntos, impulsionando a inovação agrícola em ambas as nações.

Assim, a parceria entre o Brasil e o Japão na indústria do café transcendeu fronteiras geográficas e culturais, enraizando-se em uma colaboração profunda e mutuamente benéfica. Desde a introdução de técnicas agrícolas avançadas até a promoção da sustentabilidade e da inovação, essa aliança tem sido um pilar fundamental para a modernização e a competitividade do café brasileiro no cenário global.

JICA e EMBRAPA: Grandes Contribuintes e Apoiadores do Crescimento e Desenvolvimento Cafeeiro Brasileiro

Na exposição “Arigatô, Café – a Jornada da Imigração Japonesa na Cafeicultura Brasileira”, realizada em janeiro de 2024 no Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, o representante chefe da Jica, Masayuki Eguchi, destacou o trabalho da Agência de Cooperação Internacional do Japão. A Jica, uma agência do governo japonês responsável por implementar a assistência social para o desenvolvimento, atua no Brasil apoiando as comunidades nikkeis.

“Para a Jica, que tem entre suas antecessoras a Agência de Imigração do Japão e vem apoiando o estabelecimento dos imigrantes japoneses e suas famílias no Brasil desde a década de 1960, o setor agrícola está intimamente ligado ao início da imigração e continua importante até hoje para boa parcela da comunidade nikkei,” explicou Eguchi. Com sua cooperação técnica e financeira ao Brasil, a Jica proporcionou o desenvolvimento de 345 mil hectares de terras agrícolas no Cerrado, aumentando posteriormente em 65% as terras aráveis, em 500% o volume de produção e em 300% a produtividade.

Outro grande propulsor para o desenvolvimento do café no Brasil é a Embrapa, que desempenha um papel crucial no avanço da produção cafeeira através da coordenação do Consórcio Pesquisa Café, criado em 1997. Desde a criação do consórcio, a participação do Brasil na produção mundial de café, conforme dados da Organização Internacional do Café (OIC), aumentou de 19% em 1997 para cerca de 30% em 2022, mesmo com uma redução de 20% na área cultivada.

A Embrapa Café, uma unidade descentralizada da Embrapa, é responsável por coordenar o Consórcio Pesquisa Café. O consórcio é fundamental na formulação, proposição, coordenação e orientação de estratégias e ações para a geração, desenvolvimento e transferência de tecnologia do café. Além disso, promove e apoia atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação realizadas pelas unidades de pesquisa da Embrapa e outras 46 instituições de pesquisa, ensino e extensão rural que fazem parte do consórcio. A Embrapa Café também desempenha um papel importante na formulação de políticas públicas para o desenvolvimento da cadeia produtiva do café.